Vou relatar algo que aconteceu comigo e fiquei perplexa – Que o estado não garante a segurança das mulheres já sabemos, e que muito já tem se falado e feito para melhorar também sabemos. Quando algo acontece com você é realmente surreal.
Eu faço minha corrida de 5Km algumas vezes por semana e gosto de escolher lugares aleatórios, ou perto da minha casa, e neste dia escolhi correr perto de casa, ao sair fui importunada por um rapaz que estacionou seu carro ao meu lado para pedir informação, um garoto com não mais de 21 anos, educado, bem vestido, dei a informação e ele insistiu que eu fosse com ele, Deus sabe que fui educada e falei “Não” e sai correr, ao voltar ele estava esperando no mesmo local. Confesso que me senti invadida, desrespeitada e ele não se importou com o meu incomodo e continuou a falar asneiras.
O ponto que quero levantar é a coragem e a facilidade que um indivíduo tem de perseguir e importunar uma mulher, em plena segunda feira as 8h da manhã. A Verdade que não tem como o estado proteger todas as mulheres, mas porque nos tomam o direito de nos defender?
O que aconteceu ali não foi apenas um “mal-entendido” ou uma cantada inoportuna; foi a demonstração prática de como a sensação de impunidade encoraja o agressor. Se um jovem se sente plenamente confortável para mapear a rotina, aguardar o retorno e encurralar uma mulher à luz do dia, em uma rua movimentada, é porque ele sabe que o risco de sofrer uma consequência real é quase nulo.
A estatística mostra que essa ousadia não é um fato isolado. Dados do 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam que o Brasil registrou 1.467 casos de feminicídio em 2023 — o maior número desde que a lei foi criada. Mais do que isso, as denúncias de importunação sexual cresceram cerca de 48% e as de perseguição (stalking) aumentaram mais de 38% em relação ao ano anterior. São milhares de mulheres que, assim como eu, saíram de casa para uma atividade corriqueira e viraram alvo da audácia de quem não teme a lei.
A grande contradição do nosso sistema está aí. Por um lado, o Estado admite que não tem como colocar um policial em cada esquina para garantir a integridade física de cada cidadã. Por outro, desarma e tira o direito de resposta da mulher cumpridora dos seus deveres.
Como atiradora esportiva e detentora de CAC, conheço as regras, passei por avaliações psicológicas, exames práticos e rigorosos processos burocráticos. Sei manusear um equipamento com responsabilidade e precisão. No entanto, a legislação atual entende que a minha preparação e a minha vida perdem o valor no momento em que piso na calçada. O Estado me nega o direito de portar os meios para garantir minha própria sobrevivência, enquanto entrega a mim — e a todas nós — à sorte do próximo indivíduo audacioso que decidir cruzar nosso caminho. Precisamos mudar essa mentalidade com urgência. A conscientização de uma sociedade não passa apenas por discursos bonitos em datas comemorativas ou por campanhas educativas que o agressor ignora. Ela passa pelo respeito real ao espaço, à vontade e à soberania do corpo de uma mulher.
Se o Estado admite a própria incapacidade de nos proteger a cada segundo, negar-nos o direito sagrado de defender a própria vida não é proteção — é cumplicidade com o perigo. Não queremos apenas sobrevivência por sorte; exigimos respeito absoluto e o direito incontestável de nos defender.





