O som das baterias que se escuta nos ensaios das últimas semanas carrega mais do que ritmo, carrega memória. Com o desfile de Blocos e Escolas de Samba confirmado para os dias 6 e 7 de fevereiro em Lages, a “Princesa da Serra” se prepara para um reencontro com sua própria identidade. Para muitos jovens que estarão na avenida, a festa é novidade, mas, para a história da cidade, é um resgate centenário.
Enquanto Lages se prepara para as festividades deste ano, o resgate documental de crônicas antigas revela a folia de “outros carnavais” como uma manifestação popular da cidade.
As pistas para entender de onde vem esta paixão estão guardadas em arquivos históricos. Em um dos recortes do jornal Correio Lageano, datado de 5 de março de 1991, estão preservadas crônicas dos “tempos d’antes”. Elas detalham o nascimento da paixão carnavalesca em Lages, preservando nomes e episódios que, de outra forma, teriam se perdido no tempo.
Os papéis-chumbo e as batalhas
O material jornalístico funciona como um guia para compreender a transição do antigo “jogo do entrudo”, prática de arremessar limões de cheiro e água, que foi proibida há muitos anos, para o formato dos clubes carnavalescos, escolas de samba e blocos que conhecemos hoje.
Segundo os registros no jornal de 1991, o Carnaval lageano do início do século passado era um exercício de criatividade e esforço coletivo. Em 1929, o antigo Teatro Municipal, palco de grandes bailes da sociedade carnavalesca Vai ou Racha, era transformado em um “Salão Veneziano”, forrado com papel-chumbo prateado colado manualmente com grude caseiro. Cada detalhe era resultado do trabalho voluntário de foliões que viam na festa um espaço de expressão cultural e convivência.
A folia de rua e os carros alegóricos
O Carnaval de rua dos anos 1920 também transformava o traçado urbano de Lages. De acordo com o arquivo, dezenas de automóveis de capota arriada eram ornamentados com flores naturais ou artificiais, tornando-se verdadeiros “ramalhetes ambulantes” que conduziam rainhas e blocos pelas ruas. As vias centrais, como a Rua Correia Pinto e a antiga XV de Novembro, ficavam tomadas por serpentinas lançadas sobre os fios de luz, criando um cenário que marcava a cidade por dias.
O Carnaval de hoje como continuidade da história
É nesta linha de continuidade e resgate que se insere o Carnaval 2026. A programação oficial prevê, no dia 6 de fevereiro, o desfile dos blocos carnavalescos, antecedendo o desfile das escolas de samba, marcado para o dia 7 de fevereiro, na rua Archilau Batista do Amaral, endereço da Praça do Centro de Artes e Esportes Unificados (CEU)/Estação Cidadania, bairro Universitário, ao lado do Ginásio Municipal de Esportes Jones Minosso.
Para a superintendente da Fundação Cultural de Lages (FCL), Carla Zonatto, a retomada e organização do Carnaval representam mais do que entretenimento. “O Carnaval de Lages é patrimônio cultural, construído por gerações. Valorizar esta festa é reconhecer a história da cidade e garantir que ela continue viva, dialogando com o presente e com as novas gerações.”
A prefeita de Lages, Carmen Zanotto, faz o convite para que a população participe da programação. “O Carnaval é um momento de encontro, de celebração e de cultura. Convidamos os lageanos e visitantes a prestigiarem a festa e viverem este resgate histórico.”
O Carnaval 2026 é uma realização da Liga das Escolas de Samba de Lages (Liesla) e conta com apoio da Prefeitura de Lages, por intermédio da Fundação Cultural de Lages (FCL). E através do convênio da Fundação Catarinense de Cultura (FCC) com o Governo do Estado de Santa Catarina.